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Domingo, Junho 22, 2008
contos de escola ou menino-poeta, parte 8 e 9
parte 8
sorri, em êxtase. depois de tantas noites mal-dormidas, dormi. na minha boca ainda sentia o seu gosto, e a minha cabeça zunia lentamente, como quem é forçada a acreditar que um devaneio se realizou. devia ser a primeira vez de anos que isso acontecia. meus pés formigavam, ainda excitados. aquele dia não me masturbei, com medo que meus sonhos pertubassem a cena real que não saía da minha mente. estranhamente, sabia que aquilo era só o começo, e que nada podia dar tão errado. seria necessário agora só um esforço para derrubar uma convenção de moral estúpida. se ela realmente me quisesse... as aparências não seriam fortes o suficiente para derrubar tal paixão insalubre. fechei os olhos, calmo, agora meu coração parara de se sacudir e retumbava compassadamente, sem sair do ritmo. inspirei, para mergulhar na repetição periódica e infinita do que acabara de acontecer, coisa essa que agora parecia disforme, patética e irreal. será que era possível que eu me enganasse? será que sentir sua saliva era apenas minha imaginação exercendo sua incrível força sobre mim? adormeci, afastando tais pensamentos mórbidos, pois se isto era verdade, bem era também que eu estava já a ponto de ser internado.
parte 9
só fui tirar a dúvida de que minha cabeça não havia pregado uma peça em mim mesmo na segunda-feira. o sol de final de semana tinha se esvaído tanto como a certeza da minha lucidez, e o céu se revirava em tons de cinza, branco e roxo. tal professora maldita, quando não me matava por me fazer sofrer, invertia toda a ordem dos meus pensamentos, a percepção tão clara que eu sempre tive, a minha noção de realidade e sonho. nesses últimos meses, não sabia mais quem era eu. podia ter mudado por completo, e não já me reconhecia em parte alguma, a não ser na certeza estúpida de desejar esta mulher. quando bateu o sinal, esperei, com a cabeça e os olhos baixos, visivelmente pertubado. só quando senti que a classe retornava, devido a presença da professora, pude olhar para frente. ela colocava os seus livros e papéis inutéis na mesa do professor, inclinando-se levemente, e deixando ver suas batatas da perna brancas e redondas. usava uma saia esvoaçante, que poderia deixar qualquer movimento insinuante. olhos para os alunos e sorriu. preguei os olhos nela, feito predador de olho na sua caça fugitiva, e neste momento, perpassou seus olhos felinos sobre mim, desfazendo o lindo sorriso, em uma careta rápida, emburrecendo as feições e, em seguida, virando-se de costas. aquilo não me agradara, mas, no ínfimo, vibrei. pelo menos louco, completamente louco, não estava; minha mãe agradece, professorinha. não quis ficar de frente à sala, nem falou muito. quando teve que explicar alguma coisa, sentava-se na sua mesa, arrastada para o canto extremo do qual eu sentava na sala. mesmo assim, via que essa batalha ia me doer um tanto, mas era preciso enfrentá-la com todas as armas disponíveis. e não hesitei, pois não tinha chego a tal ponto para retroceder. agora já estava feito. não desviei meu olhar de seu semblante amargo durante um segundo, sentado de lado, com as mãos na carteira, sem me preocupar em fazer nenhum exercício. ela percebia, mas fingia que não. mexia nos cabelos, coaçava a perna, levantando a saia, quase sem consciência do pecado que cometia. no meio da aula, deu de andar para os lados e dar bronca a qualquer um que tivesse a infeliz idéia de perguntar alguma coisa. sorte dela que ninguém estava interessado em literatura, e por isso não tinha que aturar nenhuma voz interrogativa. quando vi que ela recolhia os materiais, olhando desesperada para o relógio na parede, levantei a mão. ela me ignorou. chamei-a, em meio aos zunidos e gritos de conversas e 'trucos'. ela me olhou, indagativa, com um pouco mais de agressão na expressão que o comum. sorri. ela virou de costas e sentou-se com as mãos na testa. continuei a olhá-la incessamente até o sinal bater. continuei a sustentar meu olhar, esperando sua próxima reação. talvez ela tivesse entendido. talvez ela se fingisse de burra. contraditoriamente, ela continuou sentada na sua mesa, escrevendo, até o último aluno retardatário sair. quando o silêncio tornou-se insuportável, ela voltou a me olhar com agressividade. eu já estava de pé, com a mochila nas cotas. virei-me, dando passos vaciltantes, mas ainda assim certeiros, em direção a porta. então, ouvi sua voz, que não era nem de longe, doce.
- agora espera, caralho.
virei meu rosto para sua figura empertigada, feito galo de briga, seus olhos continham uma fúria irreprensível, mas a boca sorria um sorriso torto e cruel. fechei a porta da sala. andei cambaleante até ela, e percebi como minha lentidão e minha ousadia a irritavam cada vez mais. quando cheguei perto, suficientemente perto para sentir seu perfume, seu sorriso se contraíra em uma feição que poderia ser de choro.
- o que você quer de mim, hein?
- de você, nada. nunca poderia cobrar nada de você.
- não tens nem o direito, menino. quer parar de me olhar desse jeito?
- não posso controlar, professora. sério, não ria assim, tão sarcasticamente. mas a senhora não tava achando que eu ia chegar aqui e esquecer tudo, não é?
- não acho porra nenhuma de você. acho que você devia sumir.
- sumir para que eu não te pertube mais? que decepção com a senhora.
dei um passo para trás. enquanto ela, andava para frente, com o peito estufado, as mãos na cintura, os cabelos embrenhados de louca cobrindo a cara.
- decepção? para mim, tudo isto era paixão. - dizendo isso olhou para o meio das minhas pernas, com os olhos apertados mostrando tal cinismo que nunca vi tão claro em sua voz ácida.
- mas é! por uma mulher que não siga convenções, que não se preocupe com as aparências, que não viva de acordo com o que a sociedade manda. mulher esta que você parece. mas vejo agora que só é primeira impressão. pena.
eu sabia que tinha acertado. ela me olhou atônita, deixando cair um dos braços, mole do lado do corpo. a coluna voltou a curvar-se, em posição de submissão e a boca se escancarou incoscientemente, mais parecendo uma revolucionária velha que descobre a falsidade de seus ideias. quando recuperou do sustou, passando a mão pelo rosto e pelos cabelos, e se apoiando na mesa, pegou uma papel e escreveu alguma coisa em tinta vermelha. abriu minha mão sem cerimônia e enfiou o papel entre meus dedos, fechando-a depois. ainda segurando minhas mãos, em um gesto que não era nem carinhoso nem fraternal, disse, com estupidez:
- sabia que seu discurso agressivo vale muito mais que seus poemas babacas e românticos que escreve.
'uuh, coração leviano, não sabes o que fez do meu.'
Segunda-feira, Junho 09, 2008
contos de escola, parte 7
o sol se punha devagar no horizonte, agora. minha professora tomava um gole do seu terceiro café. estalou os lábios e olhou para mim, com um sorriso tão bonito que eu tive vontade de beijá-la naquele momento.
- eu nunca conversei de tantas coisas profundas com um aluno.
eu sorri. nas últimas horas, meu coração não parara só um segundo; e não era só o seu sorriso doce, a sua voz irônica ou seus peitos que arfavam lentamente enquanto falava. era de todas as palavras cortantes que saíam da sua boca e saíam esvoaçando por todo o lugar, contagiando o mundo do jeito que era só dela. não pude deixar de reparar como falava com desenvoltura, que tinha conhecimento de todos os assuntos e que vivia apaixonadamente. era impossível que ela realmente existisse, e que pudesse ainda ouvir minhas palavras imaturas, cegas de experiência, carregadas por uma paixão irresponsável e irracional. mas ela parecia se divertir toda vez que eu discorria sobrte um assunto, e eu procurava transmitir o meu sentimento por todas as entrelinhas. eu sabia que ela entendia... sabia porque a cada final de frase, a maldita sorria de lado, segura e provocante. pensei que talvez estivesse debochando de mim, que eu fosse uma piada, um brinquedo. mas eu não me importava muito com isso, ela poderia abusar o quanto quisesse de mim.
- mas eu preciso ir, menino-poeta.
ela disse isso, mas continuou sentada, olhando me ansiosamente. eu peguei em sua mão, e pedi, com olhos suplicantes, que ficasse. que ficasse até que o mundo acabasse, porque já não importava muito.
- você diz umas coisas engraçadas. mas eu gosto. você não acha que nossas almas combinam?
- ora, professora. como eu poderia conhecer tão a fundo sua alma se nem teu corpo conheci?
e eu pensei que seria a morte, e que ela iria embora, e que eu nunca a mais veria, seria o nosso fim, por uma frase tão pragmática, tão idiota, tão cinematográfica, tão literária... que não cabe na vida real. ela continou meu olhando, como quem se decide por algo. não tinha expressão alguma, ou eu era incapaz de detectar algum tipo de sinal. meu corpo tremia de excitação... mas meu medo de que ela percebesse já não existia. aproximei-me dela, devagar... não havia mais escapatória. era a morte. eu podia sentir sua respiração morna... seus olhos pretos arredondados me fitavam, um pouco assustados, mas ainda assim, uma vastidão de mistérios caóticos. você é minha morte, professora. e eu me entregarei ao suicídio, sem mais hesitar.
encostei meus lábios nos dela, devagar... ela não se moveu, não deu sinal nem de continuidade, muito menos de querer ir embora. parecia que travava uma severa guerra dentro de si, ou assim eu pensava. passei meus lábios sobre os carnudos dela, sentindo um pouco da sua saliva quente misturar-se à minha. enfiei minha língua e fechei os olhos, dando tudo de mim... eu não poderia mais sair dali.
a partir daquele dia, meus lábios no seu colaram. vivíamos assim, e já não tínhamos voz. éramos entrelaçados, de corpo e alma, e era só isso com o que nos preocupávamos. quando, enfim, morremos (e no mesmo dia, pois, clichê assim, sem você é o fim) enterraram-nos juntos, e fizeram de nós remanescentes do amor em mundo de ódio.
já não sabia que lugar eu estava, quando ela afastou-se de mim. minha boca estava morna e amortecida, marcada com sua saliva consistente e ácida e minha língua ainda se agitava em loucos ciclos, inquieta, insatisfeita, pedindo mais. ela me olhou com um misto de desprezo e tristeza. não entendi tanto sentimento de repugnância depois de ter me levado por mundos fantasiosos em poucos segundos.
- isso é um erro... lava essa boca e vai para casa.
- não!
ela olhou-me querendo dizer cala a boca, e limpou a boca, olhando com aspereza os respingos de saliva que ficaram em sua mão ao fazer isso.
- vai, moleque, vai! some daqui! some, some, some!
- prof...
e gritando isso, histérica e descontrolada, saiu andando rápido para o fundo do café. passou debaixo do balcão, feito bicho assustado, e sumiu por uma porta escondida de marrom. resolvi ir embora, um pouco arrasado. mas ainda assim, não conseguia tirar do meu rosto um sorriso de quem está chegando ao fim da corrida.
é preciso dizer que te amo, te amar ou perder sem engano.