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[Segunda-feira, Setembro 25, 2006]
me diz se assim está em paz, achando que sofrer é amar demais.
sentou-se para ver as estrelas, e só viu o espaço azul escuro que havia entre elas. e poderia ser vazio, e poderia ser chamado evasivo, por acaso, ninguém prestava atenção nele. e só no azul que conseguia se concentrar, poderia se encontrar.
no vazio.
perdida no nada, longe de qualquer ponto de luz que pudesse garantir paz. que pudesse garantir esperança.
não havia garantia, e não se ouvia nem o próprio som da voz que a lamentar chorava um choro infame. não se ouvia nem as próprias batidas do coração histérico, do coração cansado.
tampou os olhos para não deixar escapar a maior fraqueza que vinha em forma de lágrima salgada escorrendo pela fachada triste. tampou os olhos para já não ver e para já não ter que admitir como doía, como sufocava, como estava saturada, como estava machucada sem nada ter para arranhar.
ergueu-se devagar e os olhos úmidos impediram-na de ver sequer coisa nenhuma. e talvez não faria tanta diferença agora, já que estava tão perdida.
se embaçou numa pintura abstrata, se perdeu numa poesia sem nexo, e chorou por um amor que não esperava mais por ela.
e chorou por surpreender que nem mais esperava por ela própria.
deu um sorriso, sem nexo, retrocesso, e seguiu adiante pelo caminho invisível que traçara entre o vazio que aguardava ansioso, talvez mais, talvez menos evasivo que ela.
tá bom - los hermanos.
por mariana;
[Sexta-feira, Setembro 22, 2006]
sintática, pragmática.
não é só porque eu não sou expressiva, que não tenho sentimentos.
deixa eu me explicar, eu juro que nem vai doer.
por favor, faça o favor de não querer me fazer perder.
e tento um tanto de dor para ver se vira um sorriso.
mas dor só trai e corrói, eu cansei de dor.
eu cansei de sorrir.
eu cansei de escrever.
eu posso te dizer.
eu queria te dizer.
mas eu não consigo te dizer, tantas coisas por fazer.
uma vida, e cada minuto uma morte.
impossilitada, insaciada.
e um fim. a todo momento apenas fim.
a cada fim de tarde, se mostra o fim da linha, e a noite o começo da vida, cada manhã a possibilidade da ida.
o fim se encerra em tudo que há horizonte.
e já me perco no horizonte de tanto fim que encontro, e de tanto fim que fujo,
iludo.
a todo minuto, uma morte.
quando a viu, seus olhos iluminaram, naquele dia ela estava linda. um brilho no olhar, um sorriso singelo. um olhar de malícia, um sorriso exagerado. e foi só isso que conseguiu ver, pois existem textos que não precisam de mais de duas linhas para se traduzir. e não há tradução no estremecimento que dá, e a surpresa de descobrir uma alegria em alguém.
por mariana;
[Domingo, Setembro 17, 2006]
visitas
foi visitar a avó num dia de sol. levou um álbum de fotografia e umas flores escolhidas a dedo. foi sozinha, já que os outros estavam ocupados demais para se lembrar da velha. o sol brilhava irritantemente acima de todas as desgraças do mundo. chegou ao ponto na hora que o ônibus que se dirigia ao hospital passava. estava vazio, e podendo escolher o lugar que sentar, ficou do lado da janela. mas não foi pra fora que olhou, e sim para a flor que estava segurando. uma margarida, branca, com o miolo amarelo. simples. e pensou se todos resolvessem as coisas perticentes a sua vida, o mundo seria pelo menos, um pouco mais resolvido.
desceu perto do hospital, respirando e tomando coragem. perguntou a atendente em que quarto se encontrava Sra. Cecília Ribeiro. 231, segundo andar. pegou o elevador com uma mulher e uma criança recém-nascida, uma enfermeira com um velho de cadeira de rodas e um médico com cara de cansado.
a porta branca do quarto estava entreaberta. antes de entrar, Carol respirou fundo mais uma vez, arrumou as flores direito na mão. entrou devagarinho, para não assustá-la. sua avó pareceu nem perceber que alguém entrava na sala, olhando as árvores pela janela lá fora. Carol esperou ela virar a cabeça para ela.
- oi vó! é a sua neta, Carolina.
ela tinha um brilho estranho no olhar, e Carol cogitou se ela se lembrava quem era ela.
- trouxe umas flores para ti. margarida é sua flor preferida.
mostrou as flores para a avó. ela fitou as flores durante um tempo e depois sorriu para elas, um sorriso despreocupado e infantil. abriu os dedos lentamente, como quem quisesse segurá-las. Carol colocou uma margarida entre os dedos enrugados da velha. e isso fez ela querer chorar. não podendo se controlar, abraçou a avó e deu um beijo na bochecha cheia de dobras dela. acariciou os cabelos brancos da velhinha, com carinho, e enxugou a lágrima que escorria lentamente. a velhinha sorriu para ela. e a menina retribuiu o sorriso contente.
- trouxe umas coisas, vó. umas fotos.
pegou o pesado album de família a apoiou nos joelhos para que ela pudesse ver. logo na capa tinha uma foto dela, novinha, branco e preta, linda. os cabelos curtos, o vestido da época, o sorriso de filme.
- você. - apontou a menina, vendo o olhar curioso da velha. - era linda, vó. arrasava com todos os homens. mas tu escolheu o vovô.
e agora apontava o jovem da outra foto que estava com ela de mãos dadas.
- bonito ele também. - a avó pareceu dar um leve sorriso àquela foto. - seu pai não gostava dele, vó. mas você sempre foi uma mulher determinada, e se casou com ele, tá vendo? - e apontou a foto do casamento deles.
virou a página, e mostrou o primeiro filho.
- o tio carlos, pequenininho. hoje ele está nos EUA, vó. tá pagando todo seu tratamento.
ela não mostrou emoção nenhuma àquela frase.
- a tia eliane, pequena. ela... bem ela... está num lugar melhor agora, a senhora se lembraria. a senhora foi muito forte quando bem, a tragédia aconteceu.
passou uma sombra pelo rosto dela, então Carol virou a página logo.
- a mamãe, tá vendo? não pôde vir, o emprego dela exige muito. mas ela mandou um beijo.
e para representar, Carol deu outro beijo na mão da sua avó. ela tornou os olhos ternos para a menina, encontrando os olhos emocionados dela, e sorriu com uma sinceridade de quem já não tem o que temer na vida.
- e seu filho mais novo, o luís. ele tá desempregado ainda, mas tá se virando. tu ajudou ele muito na vida, saiba disso. - a menina falou aquilo num tom sério, mas a velhinha ainda mantinha o sorriso sincero no rosto.
- sua irmã Matilde, sua filha, sua sobrinha Rosa, está cuidando dela bem. e aqui, seu irmão. não sei muito bem dele mais. aliás, não sei muito dessa família, se quer saber. a senhora que tinha tempo de me contar as histórias quando criança, e agora...
Carol abaixou a cabeça. a mão enrugada da sua avó, puxou a mão dela, chamando-a. e depois apontou a cabeça para o álbum. Carol sorriu.
- okay, eu vou tentar retribuir. aqui é seu neto Pedro, se tornou um menino boniiito, vó. mas um pouco metido. - e rindo pra si mesmo Carol resolveu deixar os comentários pessoais pra lá - sua neta, Larissa, a santa da família. okay, vó, você sentiu meu tom de ironia né? mas é que... tá, deixe o julgamento para você, quando se lembrava, mas vó, ela é duas caras isso... deixa né.
e para sua surpresa, sua avó olhava para ela com uma cara de que estava se divertindo.
- esta sou eu. eu mesma. prazer. aqui é vocês dois, você e vovô, num natal. tão elegantes.
a velha pareceu olhar com tristeza para a foto.
- o vovô está num lugar melhor também, eu sei disso. e para a surpresa de Carolina, a avó falou baixo, como se se esforçasse muito para escolher a dedo as palavras, que sairam baixas, lentas e roucas:
- me esperando.
- VÓ! vó, você se lembra! meu deus! você se lembra! eu disse que era só um pouco de vontade, vó, o vovô... o vovô tá... te esperando...
e então abaixou a cabeça, triste. sua avó apertou sua mão de novo, e apontou com a cabeça para o álbum novamente.
- ah sim, olha, você não a conheceu. ela é pequena pra sair de casa mas... é a filha da Luciana, sua neta. sua bisneta vó. se chama Fabiana. nome feio né? mas ela é lindinha, igual a Lu. se você viver um pouco mais, você vai poder conhecê-la, vó, eu juro. - e inesperadamente, Carol falou a última frase com mais súplica do que pretendia.
porém, a velha sorriu ao ver a menininha na foto e fez um gesto de não com a cabeça.
- acabou. - falou com a mesma voz de dar dó.
- não, vózinha. vózinha... - então Carol respirou fundo mais uma vez e falou de uma vez - eu te amo, vó. a senhora foi muito amada na sua vida. escreveu os mais belos romances que já li, admiro muito a senhora. li todos os seus livros e olha. todos da sua família, da nossa família te amamos. mesmo estando meio esquecidos ultimamente, eles não tem muita fé, a senhora sempre reclamou disso da nossa família, mas, olha vó...
- continue...assim. fé...sempre.
- eu vou ter, eu vou ter fé, a senhora é meu exemplo, olha...
- leia.
- ler...? ler... o que a senhora quer...? um romance seu? eu vou ler um trecho que sempre levo na bolsa, é meu favorito é...
- sim. obrigada, filha.
Carol respirou fundo. seu coração batia depressa, e estava ao ponto do desespero. porém, ela sabia, e soube ainda mais quando a avó pegou em sua mão, que aqueles seriam os últimos instantes da sua vida. e Carol não sabia o que pensar, se saber que os últimos instantes que sua avó passaria seria ao seu lado, se isto seria uma benção ou uma maldição. de repente parecia que sua avó só estava esperando uma visita especial, para morrer em paz. e Carol queria que seus instantes fossem os mais alegres possíveis, que seus desejos fossem atendidos. pegou o papel com o trecho rapidamente na bolsa e leu:
"E o tempo tudo leva. leva até a memória, e se não há memória, já não se resta muita coisa. mas vale a pena viver, vale a pena crer nas maravilhas da vida e nunca perder a fé no amor. pois o tempo tudo leva, mas não leva embora nunca o amor que no coração fica. o amor que dura mais que uma vida, e ultrapassa a barreira da morte. assim Mariana amava Fábio, já morto. e não era os lábios que nela tocavam, nem seu abraço macio que ela se apoiava, mas sim no mais puro e infantil amor. amor divino, elevado as alturas, e ela poderia escolher morrer, pois morrer já não importava mais. e o tempo desistiu de concorrer com essa força monstruosa que é o amor, e assim, foi de amor que ela escolheu morrer. e foi o amor que ela levou na sua alma por toda a eternidade, pois ele é a única verdade."
a mão enrugada caiu do lado da cama, e uma máquina apitava o som da morte. Carol se afastou, enquanto várias enfermeiras e médicos se aproximavam correndo da cama da sra. Cecília. e suas lágrimas corriam pelo rosto, sem produzir som nenhum, apenas a ouvir o riso que levava embora a alma mais pura e cheia de amor que conheceu.
por mariana;
[Quarta-feira, Setembro 13, 2006]
ler. leia meus lábios. não, não meus lábios. meus pensamentos. consegue entender o que eu quero dizer? não. não meus pensamentos. leia meus sentimentos. aqui, aqui mesmo. não, não no lugar do coração. isso é um músculo que bombeia sangue pelo corpo. okay, eu sei que se ele parar eu morro. mas se meu sentimento parar eu também morro. sabe onde está? está por todo o corpo, você consegue sentir. eu consigo sentir. está pulsando por cada veia que se espalha como uma doença. não, não é o sangue. o sangue é plasma leucócitos plaquetas emácias hormônios aminoácidos, coisas sem sentido, sem sentimento. é mais que o sangue. está em toda única célula. única célula que é seu próprio universo. se dividindo para durar. espalhando seu mesmo e mesmo dna pelo mesmo e mesmo corpo. é, deve ser chato ser uma célula. igual a todas as outras? não, você tá errado. elas são diferentes. as emácias não tem núcleo, o óvulo é do tamanho de um ponto final. elas são diferentes, como nós. separadas cada uma pra desepenhar uma função, formando em um tecido. como nós. aqui no brasil, trabalhando em multinacionais pra servir os países em potencial. nós somos o tecido secundário, isso. um país terciário. que sustenta os outros tecidos. os outros tecidos? são importantes. formam cérebros, formam ossos. nós formamos cartilagem, gordura, pele. não se sinta tão desanimado. os sistemas mais importantes não funcionariam se não existissem os secundários e os terciários. isso mesmo, eles dependem de nós. e se fossemos pensantes como eles, pararíamos de funcionar para eles, e ai eles falhariam. o corpo falha. desmaia. e é preciso fazer alguma coisa pra que ele não morra. então os países primários espertinhos terão que dar uma chance a nós. por que isso não acontece? porque a gente é o secundário, ora! não é óbvio? se nós fôssemos os neurônios formando cérebros cheio de estratégias não seríamos secundários. é, somos burros. mas temos sentimento, sabia? e eles não tem nada a ver com sistemas porcos, com essas coisas todas. não tem nada a ver com células nem com universos particulares. eles são os universos particulares. eles são cada gota de inspiração. cada cor acentuada. imagine uma vida sem sentimento. inexiste, apenas dura. pior que a morte, como o coma. eles são energia. estão movimentando todo o tempo. sobre Deus? é Deus. isso é Deus. isso tudo é uma coisa só. interdependente, que vai mais além do que podemos enxergar. com o perdão da palavra, queremos enxergar. se nos esforsássemos para ver a verdade diante do nosso nariz, enlouqueceríamos. não, eu não sei nem uma parte da verdade, acredite. só sinta o meu sentimento, eu ainda não estou louca. eu sinto. sinta aqui, comigo.
...
por mariana;
[Segunda-feira, Setembro 04, 2006]
sede
o teu retrato na parede, todo dia passava a me enfeitiçar.
era como desses filmes malucos, você me convidava a dançar.
e eu poderia jurar por todos meus dias, o quanto você sorria para mim.
eu não poderia ser tão maluca em dizer, que me dizia que isso não teria fim.
a tua boca torta, me dizendo coisas em tom pastel.
era tão doce seu sorriso, até acreditei ser aquela tinta feita de mel.
encantando entoando a mais bela das canções, o seu assobio me assombrava.
e cada vez mais, parecia que sua profecia se aguaradava, o seu amor me sufocava.
comentavam as vizinhas enloquentes, vadias de seus maridos,
dona iaiá foi deixada, e rezavam todo santo dia para seus santos pedidos
mal sabiam tal velhas loucas, se é que abrissem a boca, poderiam ouvir o santo a dizer
que tal marido era mais companheiro que aqueles vagabundos, que mal sabiam poemas escrever.
ah, meu amor, se ouvissem suas mais belas poesias,
se encheriam as cidades com as mais completas alegrias,
já não importavam as guerras e os bombardeios, todos os velhos tortos.
os seus olhos tão vivos pintados de cor de aniz, e os meus que já eram mortos.
me entreguei, feito jasmim ao seu cravo apaixonado,
só não era colombina, por pierrot não havia me abandonado,
e a rosa ficou ferida, caindo de uma sacada, me deixando ao sempre sentada,
só nunca fui emburrada, só deixei as janelas fechadas, não queria saber de nada.
e quando abriram a porta, com um estrondo
protegi seu fraco rosto, com um girito de incômodo
ouvi um grito histérico, e não queria ouvir o que tinha de ouvir
sei que alguém quebrou o encanto e impiedosamente passou a rir.
só eu que não achei graça
e pela primeira vez me lamentei pela desgraça
a você, meu bem, que para sempre me deixou no escuro
o frio do escuro das janelas abertas, dos tiros de fogo e sem futuro.
e, ah como sinto falta, agora que me apunhalo
dos seus dizerem tão sábios que ouço e só me calo
ouço a todo momento e vejo sem nunca esquecer o seu rosto na parede,
e agora se me mato por ter descoberto tal cruel mundo, me mato por sentir da sua saliva... sede.
por mariana;
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