Quarta-feira, Junho 28, 2006 às 19:35

colocou legião urbana com a sã consciência que agora ficaria triste. porque legião urbana tinha a capacidade de a fazer pensar em todas as coisas da sua vida - importantes e desimportantes. e todas as melancolias e todas as culpas e todos os problemas que a gente deixa quieto, sem mexer, com medo de que alguma coisa exploda, fingindo [e só fingindo] que está tudo muito bem. e desse jeito, deitou-se acomodada no sofá, puxando um cobertor. e, como previu, perdeu todas as vontades - fome, frio, carência nada mais importava, além do turbilhão de sentimentos que se formava dentro dela. pouco a pouco pôde sentir e sentir mais o que as músicas lhe diziam e ainda distinguir lentamente as cenas que lhe ocorriam. não eram mais flashs rápidos de culpas, eram filmes inteiros. e esses filmes lhe contavam tudo que era o de mais mal-resolvido, o de mais sentido em sua vida tão divertida.
pôde perceber, um dia distante, de alguém distante. que ninguém mais se lembrava, talvez. mas ainda era vivo na sua memória. o seu beijo - perverso, instântaneo. foi tudo assim, viu ele uma vez e quase se indentificou. não era um galanteador bonitinho e fiel - muito diferente. era um cachorro com cara de cafajeste e que namorava. namorava mas não perdeu tempo de dar em cima dela e ocultar o fato de estar namorando. e no encontro seguinte estava tudo tão combinado, como se fosse uma novela - pronta e instântanea. não sabia até hoje o que a fez balançar naquele menino cachorro, era tão difícil quebrar seu gelo. tivera vários casos e casinhos, afairs e pequenos amores mas o tal, tipo tião, tinha conquistado seu coração de sol. tinha. e talvez por ser tão cafajeste, galinha, safado, cachorro, indiferente e, por isso mesmo, as cenas eram tão vivas, que vinham e deixavam gosto de 'quero mais' . sempre que o via - com outras e outra - vinha insistentemente a vontade inesperada 'quero mais, eu quero'. apesar de tudo, faria tudo de novo. - ."fez saber que ainda era muito e muito pouco." e pensar nisso atiçava uma das vontades inertes: a carência. e renato russo dava tom de saudade àquela carência, então que se lembrou de seu último rolo que a balançou. e só agora ela percebia como a tinha balançado. e foi tudo tão rápido - tudo era tão instântaneo na sua vida. naquele cinema, não parou uma só vez de conversar com ele. e mesmo sendo tão e tão diferente do último que tinha trincado o gelo de seu coração, a fez se interessar de maneira nova. passando a invistir e sonhar com esse novo - ed, já que falamos de novela. e foi assim, rápido e instântaneo: que durou um mês, com ele levando a sério, ligando no seu celular - nada de safadeza, nada de indiferença. entre idas e vindas no cinema, roxos no pescoço, mãos, escuros e beijos. e se lembrou, entretanto, da sua culpa sem desculpa, da sua insegurança segura que quebrou tudo que havia mais de seguro numa relação que tinha tudo pra dar certo: mas ela é afoita, e trincos no gelo não o fazem quebrar inteiro. e afoita como era, fungindo de si mesmo, sem saber, foi que o traiu, sem trair, já que, hoje em dia, quase nada é sério. e mesmo sem ser sério, terminou, indiferente, cachorroa, safada, cafajeste. terminou e disse que não aguentaria olhar pra ele e lembrar da sua rápida e gostosa traição. terminou sem se dar conta dos seus sentimentos. nunca se dava conta deles. ou se tocava tarde demais - como agora. "sempre as mesmas desculpas, e desculpas quase nunca são sinceras". agora que ele, ele estava tão inacessível, talvez quase comprometido. e pensar nele a fez sentir ânsia. "hoje eu tive febre a tarde inteira." ânsia de culpa, de rejeição. "hoje a tristeza não é passageira." se controlando para que as lágrimas não escapassem dos seus olhos, sua mente - malvada, malvada mente - a acordou para a luz e para o escuro, onde termina e onde começa - a pessoa que não foi fisgada. a pessoa supostamente amada, afinal, nunca se sabe de nada. longe, tão longe e perto, tão perto. difícil, tão difícil e fácil, tão fácil. gostaria de lhe ligar e dizer entre dentes tudo que gritava de desespero em seu peito, tudo que era recolhido, negado pela sua consciência - sã, consciência sã - tudo que sentia e o que não sentia e que a fazia querer dormir para não pensar demais - mas já não podia negar o sentimento que lhe tomava agora. "palavras são erros, e os erros são meus". não adiantava mais mentir como seus pés formigavam e seu coração disparava se uma mensagem dele chegava, uma tentativa de ligação, algo a mais, algo que confirmasse que tudo não era só dela - que, desesperadamente, ele também se desesperava em lhe falar todas as coisas. "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira", se viu cantando alto e quis chorar com todas as suas forças e gritar. e ligar e por para ouvi-lo todas as palavras que aquelas músicas diziam, por ele e só por ele. se sentia rejeitada - e rejeição não combinava com a sua pessoa: impetuosa, determinada, dessas de arrasar quarteirão, que fere coração, pena ausente, sentimento crescente, coração de pedra, amigas para sempre, correspondida, divertida - a sua vida assim, só, parecia tão linda. mas quando pensava nele, o seu gelo quebrava-se, talvez não inteiro - porque dai seria façanha incrivelmente absurda. mas não, quando pensava nele, queria mais é ligar - e não só ligar. queria largar essa cidade de merda e ir prum lugar longe de tudo onde só haveria ele. e ele. e ela. juntos. sem namorada nenhuma, sem distância alguma, sem saudade nenhuma. os corações deles batendo no mesmo ritmo - e mesmo que ele, ironicamente talvez, odeie legião urbana - para ali estar, para não mais conter seus sentidos sentimentos encobertos por mentiras de verdade. sentimentos tão sentidos, que não faziam nenhum sentido. ele namorava, estava em uma outra cidade e quase incomunicável. mas de alguma maneira sentia que ele também sentia por ela essa sensação nova e esquisita. "e é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade de tudo que eu ainda não vi." e, de alguma maneira, e se ele fosse o seu amor - verdadeiro, forte e único. apostaria todas as fichas nele, para depois se cansar? "é só saudade então." não podia mais distinguir as vozes da emoção e da razão, brigando sem parar. as palavras do renato russo latejando fielmente naquele transe, "acho que estou gostando de alguém e é de ti que eu não esquecerei". as lágrimas já não eram contidas, estava toda aberta, toda molhada, chorosa, saudosa, precisando de alguém. de um abraço. por favor. um abraço. "e nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. teremos coisas bonitas pra contar e até lá vamos viver, temos ainda muito por fazer. não oolhe pra trás, apenas começamos. o mundo começa agora. aaaah, apenas começamos." e pensando, por um desvio, que suas lágrimas poderiam encher uma forma de bolo inteiro, se esqueceu do bolo de chocolate lá no forno. e saiu correndo, espantando toda a tristeza - 'hora de mudar de música, ou vou acabar ligando pra ele. mas acho que vou é tentar ligar pra ele'. conduziu seus dedos, rápidos e instântaneos, até o celular, ali perto. abrindo, e segurando suas lágrimas - da onde vinham tantas lágrimas agora? apertou o botão verde, aquele da rediscagem indireta, ansiosa e, se alguém tirasse uma foto, parecendo uma criança brincando com o celular de tornar as coisas piores do que são - de fazer valer sentido todas as letras escritas por renato russo.

e me diz, me diz, se ela destruir tudo que há de seguro com ele, se ela destruir, ela saberá conduzir esse amor. sem enjôo? pois sabe, sabe me dizer se não são todos os dramas problemáticos - a namorada, a distancia, a dificuldade, esse jogo de rato e gato, essa dúvida da recíproca - não tornariam seus sentimentos fortes, e se por acaso, tudo cair na sua monotonia divertida ela logo arrumaria outro amor? afinal, trincas e pedaços derretidos não acabam com o gelo da rotina.

[trilha sonora: teatro dos vampiros - legião urbana (ah, jura?)].
daria para escrever um livro só disso, porque uma historinha curta não dá nem pra sentir a intensidade da coisa.

por mari
Domingo, Junho 25, 2006 às 16:25

algum dia desses...
enquanto pensava sobre sua primeira nota vermelha neste ano, ela nem percebeu que muitas nuvens escuras se formaram no céu. só quando a primeira gota caiu em seu ombro foi se arrependeu de não ter esperado na escola, antes de fazer sua habitual caminhada até o ponto do ônibus. já estava no meio do caminho. só restava correr sob a tempestade.
chegado um certo ponto, correr não adiantava mais, estava encharcada e a mochila pesada só dificultava as coisas. resolveu ir andando, sem ligar para os carros que passavam na rua e faziam questão de jogar o máximo possível de água nela.
logo o ônibus veio. sentou-se nos primeiros bancos para recuperar o fôlego. tateou o bolso à procura do dinheiro da passagem e descobriu que havia sido roubada ¿ não soube como nem onde ¿ foi obrigada pelo motorista com cara de bandido velho a descer do ônibus.
seguiu o resto do caminho até seu prédio à pé. uns 5 quilômetros.
a chuva não caía mais tão pesada como antes, o sol já aparecia no céu acinzentado, formando um tímido arco-íris. era um fio de esperança e felicidade para um dia que parecia perdido. chegou na rua de casa com as finas gotas de chuva batendo em seus longos cabelos loiros, sem nem ser sentidos.
o hall do prédio completamente sujo por pegadas denunciava que não era a única pessoa ali a tomar chuva. mas todas as pegadas desviavam ao chegar na porta do elevador. soube o porquê ao ler a placa ali pendurada ¿elevador quebrado. use as escadas¿.
respirou fundo e subiu os 13 andares se arrastando, pensando o que mais poderia dar errado. tirou o tênis ao pisar no tapete de casa ¿ não estava afim de ouvir broncas da mãe ¿ mas ao girar a maçaneta. nada. fez mais força, mas nada. riu, como se tudo fosse uma grande piada. fechou os olhos e no único momento de sorte do dia, achou as chaves jogadas dentro da bolsa.
entrou em casa e foi deixando tudo pelo caminho. mochila, camiseta, bolsa, calça, óculos. quando tentou acender as luzes. percebeu que a casa estava sem energia. nem ligou mais para a falta de sorte. encheu a banheira de água gelada e tomou um demorado banho.
estava ali fazia uns 30 minutos e ouviu seu celular tocar dentro da bolsa. saiu correndo para atendê-lo enrolada numa toalha e tremendo de frio. era ele. e para acabar o dia. ouviu as palavras que vinham do outro lado:
- não te amo mais.


não confudam as bolas, é do mesmo autor de novas felicidades, o texto de antes do borboletas em vão, tão vendo?
engraçado como pequenos fatos podem se tornar grandes idéias, não?!

por mari
Segunda-feira, Junho 19, 2006 às 22:40

borboletas que vão
uma borboleta tinha pousado em sua perna, silenciosa. uma dessas comuns, pretas, vulgares. e olhando a borboleta, fazendo o máximo possível para não assustá-la, lembrou-se que isso significava sorte. e um pouco de sorte iria tão bem, mesmo se fosse uma sorte comum, preta, vulgar - já que ela nem sabia o que era ter sorte, pensar nessa palavra fazia bem.
e foi com o susto da chuva que se aproximava - a chuva, sempre ela - que espantou sua borboleta comum. não fez esforço para agarrá-la, não fazia gosto, não tinha idéia como é que se prendia uma borboleta, uma sorte vulgar. espantou sua sorte, mandando-a morrer em outra pessoa, talvez alguém que desse um maior valor a ela - ou melhor, que a agarrasse com toda sua força. e a chuva chegou de supetão rasgando sua alma, corroendo sua esperança. cinza, pesada, fria. dor. e soube que a chuva lhe trazia sua comum, vulgar, preta dor. e sentiu que, burra como era, sempre espantava a sorte em troca da cinza dor. a dor que fazia ela querer tomar chuva, sofrendo e desejando cada gota de água ácida, amarga, ardida, apimentada. a dor que a fazia escrever no vidro do carro, nas janelas das casas, no portão da sua casa, palavras que ninguém entendia ao certo. a dor era sempre a mesma, e se renovava, cada vez que sentia a pontada - o pontapé inicial, o trovão que começaria - de um tom de cinza distante, uma certa ambiguidade complexa e inexplicável. dor que se rejeita e se necessita. dor que remete aos prazeres mais dolorosos, mais angustiantes e mais belos de todos. soube que era feita de inteira dor, e não haveria sorte na sua vida - nem preta, comum, vulgar - mesmo que essa viesse ao seu encontro, traiçoeira e fugitiva. a sorte se entrelaçava com o azar, mas nunca se embaraçaria onde tivesse dor. e, o que mais doía nessa redundância redonda e sem nexo, era saber que tudo isso era culpa dela. escolha dela. dor dela.

[trilha sonora: via láctea - legião urbana
quando tudo estiver perdido, sempre existe um caminho; mas não não me lembre disso; hoje a tristeza não é passageira...

por mari
Domingo, Junho 18, 2006 às 20:17

nova felicidade

tinha acabado de desligar o computador mas ainda estava sentado diante dele. o quarto estava sombrio, o monitor, que era a única fonte de luz, havia sido desligado. só o rádio-relógio lançava uma fraca luz sobre sua feição pensativa. há 5 minutos atrás estava conversando pelo MSN com as duas pessoas que mais gostava no momento, a sua namorada - há 3 anos-, e uma menina que conhecera há 3 semanas.
a namorada era perfeita. tinha todas as características que ele um dia pensou encontrar em alguém com quem quisesse se casar, ter filhos. morrer ao lado.
seus defeitos a faziam completa. ele a amava, nunca sairia do lado dela - a namorada.
a garota recém conhecida, era bonita, os olhos grandes, nariz delicado, o cabelo escuro e a franja no rosto contrastavam com a pele muito clara. o sorriso no canto da boca, que parecia estar sempre prestes à sair, era o charme de sua fisionomia.
naquelas últimas duas horas que passou ali no computador, sua namorada tinha sido deixada de lado, para ela, ele mandava respostas curtas, diretas - aham. é. ctza. eu tbm. - mas para a outra não. O papo rolava naturalmente, conversas sobre os mais variados assuntos surgiam e esvaíam com uma velocidade incrível, e em meio à elas, foram percebendo coisas em comum. gostos por filmes. cidades. culinária. música. roupas. enquanto isso, a namorada ocupava cada vez menos seus pensamentos. preocupava-se cada vez menos com ela.
parado. no escuro. sentado. o queixo apoiado nos joelhos encolhidos. as pernas juntas. ele finalmente percebeu.
a namorada, não era perfeita. era apenas uma garota com qualidades que ele sempre sonhou. e era como se essas qualidades não o satisfizessem mais. ficaram desgastadas. ultrapassadas. - na verdade, ele não queria mais idealizar qualidades numa pessoa, queria conhecer alguém que o surpreendesse com suas características próprias - .
agora que saía. andava por aí com os amigos. se divertia. conhecia pessoas. conhecia muitas pessoas. pessoas novas. novas pessoas. ele finalmente percebeu. a namorada não era a única, nem a última. havia muitas por aí. não melhores, mas diferentes. que tinham muito mais em comum com ele.
afinal, é preciso renovar. atualizar. interagir. e foi assim, interagindo. atualizando. divertindo-se, que ele a conheceu. e reparou que a nova garota tinha muito mais em comum com ele do que a própria namorada. ultimamente se sentia mais à vontade com ela do que com a própria namorada. pensava em ligar o computador mais para conversar com ela. do que com a própria namorada. estava deixando a própria namorada de lado. para buscar a própria felicidade.
o escuro e o silêncio, ao contrario de tantas outras vezes, não lhe ajudaram desta vez. sem tirar nenhuma conclusão. foi dormir. exceto sabendo que no dia seguinte ligaria para ela. a garota nova.


não começa achando nada, que não fui eu que fiz.
feito por uma pessoa muito especial. fala ai, ele não tem futuro? ;)

eu só não sei explicar o porquê mas meu coração bateu mais depressa e eu não soube falar nada depois de lê-lo.
simplesmente sem saber explicar a minha reação, misturada com uma vontade de chorar - e de rir.
vai entender. mas esses são os melhores textos, eu...
eu só queria dizer que meu mundo girou quando eu te encontrei ;). tirado do cachorro grande, mãno.




por mari
Quarta-feira, Junho 14, 2006 às 20:42

havia tempos que eu escrevia todos os dias, talvez porque eu tinha motivos. talvez porque eu tinha uma dor. e talvez por essa dor [não a mesma] eu não escreva constantemente hoje em dia. dor que inspira e impulsiona, escrever sobres coisas absurdas e clichês - mas escrever de todos os jeitos. dor que encerra, desiste - e faz das palavras mais falsas e idiotas conselheiras. o papel, as histórias, alguma coisa mudou - alguma coisa mudou - alguma coisa mudou. eu posso repetir e nunca vou achar a mudança, mas sei que ainda gosto, ainda é uma das minhas paixões [e não o meu amor, porque como já diziam o amor te fode no rabo, mas pensando bem, palavras te fodem no rabo também], ainda é um sonho, ainda é inalcansável. e eu busco e busco já não sei mais o que busco. e espero e espero já não sei o que esperar. insaciada, insastifeita, encerrada, concluída, embaraçada, refletida, inversa, imersa, profunda, sentida, indiferente, diferente, igual. estupidamente igual. e ás vezes me sinto tão estupidamente igual. o mundo é tão estupidamente igual. as pessoas são tão estupidamente iguais - e algumas delas são tão maravilhosamente surpreendentes. e são pelas surpresas, pelos prazeres, pequenos, inúteis, mas emotivos e sentidos prazeres, surpresas sem graça, mas como toda a graça, toda a cor que tudo pode se tornar estupidamente bonito. e bonitamente estúpido. na verdade, tudo pode ser poesia, palavra alçada. tudo pode ser sentimento, confusão entrelaçada. um jogo de palavras, um jogo de interesses e todos estão pensando só em ganhar: e a inveja em seu devido lugar, como sempre foi o mundo [e quem faz o mundo são as pessoas, han] e eu fico, aqui, perdida e perdedora, e já nem sei do que escrevo e se escrevo, ou isso é sonho, ou isso é pensamento, feito de luz, e luz que pisca e piscará - até que nossa luz possa descansar em paz.




a carta
'cada coisa no seu tempo, cada tempo no seu espaço, cada sentimento no seu devido coração.' rafaela sentou se com as pernas cruzadas relendo a frase, e relendo para ver ser o que ela tinha entendido. ele estava querendo dizer, claramente, que melhor deixar nossos sentimentos quietos e amargurados aqui dentro do que arriscar. arriscar seria forte demais. ele estava dizendo, claramente, que não queria ela, não agora, não aqui, não com esse sentimento. logo depois da longa carta que ela tinha feito. com todo o cuidado. gastou toda a caneta-gel vermelha. com as palavras escolhidas a dedo, com os sentimentos aflorando, mais sincera impossível, mais bonita ele nunca iria receber. e recebeu de resposta uma única frase, uma frase num papel pequeno, de caderno, com caneta bic. achou tão insesato e mal educado, não pela não-correspondência, mas pela falta de valor, de cuidado, de carinho. e se o sentimento que aguarda no coração dele seria para outra. e estaria querendo dizer para ela alimentar seu amor por ele, sozinha, esperando? rafaela já tinha cansado de esperar e por isso mesmo tinha mandado a carta. selada, pelo correio, linda e linda. precisava repitir o quanto a carta tava linda? foram três noites para escrevê-la, colocando toda a prova tudo o que queria lhe dizer. e recebia aquilo, mal feito, mal escrito, letra feia, letra esculachada. sem nem uma mancha de lágrima; uma vez rafaela recebeu uma carta de um ex cheia de manchas de lágrimas. e foram as manchas de lágrimas - não o conteúdo e todos os clichês que ele usara - que a fez dar uma chance para ele. e ela continuava com ele, era verdade, mas isso não impedia que ela ficasse com esse agora. uma mulher pode ter vários homens, é verdade, isso nem se discute. e ela podia sim amá-lo como disse na carta [tão linda] e continuar com o seu namorado. seu namorado era um saco, um romantismo exacerbado, uma emisse de dar agonia. e não sabia mais porque não terminava com ele, já que sempre começava e terminava e sempre foi assim. mas o que estava em questão - agora - era a porra do papel. o papel cortado da última folha do caderno, com caneta bic, uma frase sem sentido, uma frase UMA FRASE. uma frase que tem que ficar pensando e pensando no que quer dizer. ela não estava afim desses joguinhos, ela sabia que ele tava afim dela. ele a olhava todos os dias, a comia com os olhos, na verdade. investigava toda sua vida e ela foi só dar uma chance. e se queria ficar brincando de gato e rato, ficar nesse chove-não-molha, não ia dar, ela não era menina disso. resolveu não responder, deixar ele pensar que ela entendeu toda a sua metáfora complexa, o seu sentimento afoito. ligou pro namorado emo e disse que não tava afim de sair. depois pegou a carta que mandara pro garoto-da-metáfora e começou a fazer em caneta-gel rosa: agora era pra aquele outro, tão lindo, que sentava atrás dela. iria colar na carteira dele e o olharia todo o dia. e esperaria que, pelo menos esse, responderia com um papel-cartão comprado, caneta decente, letra bonita e coisa bonita, afinal, o seu namorado era um saco. afinal, já disse que carta era linda e linda?

por mari
Sexta-feira, Junho 09, 2006 às 21:22

cerveja com cereja
ele olhou aqueles olhos verdes, com um certo falar 'eu-te-quero-agora', a sua boca entreaberta, e só podia querer dizer 'me-beije-agora', ou tudo isso seria imaginação dele, mas ela já tinha abraçado ele várias vezes e seu pau já tava duro, ele não aguentava mais de tanta cerveja e excitação. ele não aguentava e não pensava em mais nada, quando agarrou a sua cintura - curvas, que curvas - e se deitou sobre a sua cabeça na harmonia perfeita de um beijo com gosto de cigarro e cerveja e bala de cereja. um beijo quente, espalhafatoso, trêbado. e, sem se aguentar, meteu as mãos por debaixo da blusa apertada e passou pelas costas, e a outra acariciava os cabelos, estava tão maravilhoso, e ele só queria mais. não queria parar de beijá-la um segundo só, foda-se olhos verdes e bocas pedintes molhadas de gloss de cereja, ele queria ela inteira. dos pés de menina, em sandália, das pernas grossas, retas, em calça jeans apertada, das curvas de mulher - mesmo sendo uma menina - modeladas pela blusa, pelos peitos medianos - aumentados pelos sutiãs ups [mas foda-se, eram peitos], pelo pescoço erguido naquela posição de beijo de um filme francês. mas com uma pimenta de cena de filme latino. um pouco mais pornográfico pro quase lado de uma cena das pornochanchadas. a excitação o permitia tudo, e ele gostava daquela liberdade e em meio as mãos pensou, como homem e como idiota 'eles não vão acreditar, não!'. e quando ele achou que o zíper dele poderia explodir ela interrompeu, olhou no relógio e disse que a mãe dela viria. ele insistiu docemente para que ela ficasse, urgentemente, 'pelo amor de deus'. disse que precisava dela. e ela não resistiu, quem é que resistia a eles? a pegada, a cerveja, a masculinidade, a crueldade, a falsidade clara, tão perfeitamente banal e atual. ela gostava cada vez mais e mais e supunha que não iria aguentar, era o que ele pensava, 'ela vai dar pra mim'. e então, quando ele abriu o sutiã dela, no auge da espera, o celular dela tocou. 'maldita mãe'. ela disse que a mãe tava na porta, deu um beijo pronlogado nele com jeito de romantismo - e que ele tentou se aproveitar com tentativas frustradas. disse tchau e foi embora, com uma cara de orgasmo. e ele sorriu, afinal, não foi tempo perdido. 'mas caara, ela era gostosa pra cacete'. chegou aos seus amigos contando pra todo mundo que tinha quase comido a menina e eles começaram a falar mal dela, era gostosa, mas era fácil, e além de tudo burra. e comentavam que pegariam ela sempre que quisessem agora. então um amigo nerd quieto da roda falou para ele: 'mas, sabe, tem a letícia, você sabe'. ele sentou-se, e todo o efeito da bebida pareceu esvaiar-se, a letícia, sua mais nova namorada, branquinha, cabelos pretos, olhos pequenos. inocente, inteligente, margrinha. mas, afinal, ele estava bêbado né. ele amava a letícia, sabia disso. mas a prática era muito mais difícil da teoria. e se quer saber, ele nem ligou por mais dois minutos, encheu o copo de vodka e disse alto: 'eu tava bêbado, né galeeeeeeera'. e os bobos confirmaram, afinal ele tinha aproveitado o máximo, tinha quase comido, tinha ganhado o dia, tinha se exibido pros amigos. e a letícia, tava em casa, esperando por ele, amando ele. ele era o máximo, a última trakinas do pacote, o mais gostoso, ele sabia disso.uma mistura de cerveja com cereja, ninguém resistia, o protetor de todas as meninas carentes insensível, idiota e homem, completamente homem. descaradamente homem. horrivelmente homem com H maisculo, alfa macho, ogro, sedutor, mentiroso, o melhor. o melhor da sua espécie, o topo da cadeia alimentar - o topo de todas as cadeias. riu goooostoso, ele era gostoso, ria gostoso e bebia gostoooso. e tinha quase comido gostoso. gostoso. quando viu a amiga da menina se aproximando pra ganhar um abraço - coisa de bêbada procurando o protetor - o alfa macho. 'mas le, eu amo você, sabe'.


porque ALFA MACHO trai, fala mal de todas as mulheres e diz que ama a namorada, é a gente sabe.

por mari
Quarta-feira, Junho 07, 2006 às 19:10

tem dias que nada dá certo.





e eu vou fugir de casa.


por mari

Garota

mariana acredita em fadas.

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